A nova Casa Amarela
 

No fim da Rua Canto e Melo, naquela casa nova atrás dos muros, moram 14 meninos. Alguns têm 7 anos, outros, 17. Alguns são irmãos, mas todos vivem como uma família. Eles chegaram no dia 16 de dezembro, quando teve inauguração, festa e corte de fita. Essa casa faz parte de uma história que começou há quatro anos e é muito bonita. É a história da Casa Amarela e do Projeto Engenharia Social da Capa.

Era uma vez um casal que morava na Cidade Baixa e um dia, chegando em casa, encontrou um grupo de crianças na calçada. Ele se chama Gilmar Dal'Osto Rossa e ela, Maria Cristina Gonçalves da Costa. Foram conversar. Cristina ficou bem impressionada com a organização dos cinco meninos: "Cada um tinha suas coisas e só queriam dormir ali". Pediram para tomar banho. O casal, que já criava quatro filhos, decidiu acomodar os meninos na sala, pois a noite era muito fria.

O mês era agosto de 2000. No dia seguinte, começou a procura de um abrigo para os cinco. "Não podíamos deixá-los na rua", diz Gilmar. Mas não havia vagas e durante 50 dias eles dormiram na sala da casa. Ainda bem que Gilmar e Cristina já tinham alguma experiência com meninos de rua e muitos amigos, que ajudaram com comida, roupas e até levando alguns para passear nos fins de semana.

Esses amigos ajudaram a fundar, em outubro de 2000, a Fundação Instituto Recriar, uma organização não-governamental (ONG) para dar um lar aos meninos, que já eram sete. No final de setembro, haviam alugado uma casa no bairro Teresópolis. Era amarela e com duas araucárias na frente. Ganhou o nome de "Casa Amarela das Araucárias". "Queríamos um nome que soasse poético, que as crianças não tivessem preconceitos", recorda Cristina. "Casa porque não é um abrigo, é outra filosofia. Queremos proporcionar um lar", diz Gilmar, por isso, acrescenta "o tratamento é com carinho e rigor". Escolheram um bairro residencial, que não fosse na periferia nem no centro, onde as crianças não sofressem preconceito.

Foi um difícil começo. Os moradores desconfiaram dos novos vizinhos, mas as crianças do bairro logo travaram amizade com eles e aos poucos houve entendimento. Eram apenas crianças brincando com outras crianças. Este foi o primeiro resultado do trabalho, explica Cristina: "Sendo tratados como crianças, tendo apoio e referências, eles se comportam como crianças".

Uma história

A Casa Amarela não é albergue ou abrigo e não pretende substituir o lar de ninguém. O exemplo é a história de um menino que procurou a casa há dois anos. A história dele não é única. Três irmãos, primeiro maltratados e depois abandonados pelo pai, morando em uma única peça. Quando Cristina visitou a mãe, encontrou uma mulher depressiva, vinda do interior, sem condições sequer de telefonar para família. A iniciativa da Fundação Recriar foi estabelecer contato com os agora avós, que aceitaram ajudar filha e netos, providenciando a construção de uma casa no mesmo terreno em que têm a sua. "Levamos a mãe e as crianças até lá", relata Gilmar, e "com dinheiro arrecadado entre os amigos compramos algumas coisas para a casa nova". Para Cristina, é isso o que a ONG pretende: "Fortalecer os laços familiares, ajudar sempre que possível. Dos meninos que passaram aqui, nenhum voltou para rua".

O objetivo é "defender e garantir os direitos da Criança e do Adolescente da melhor maneira". Porém, o mais difícil sempre foi a manutenção. Hoje, são 350 sócios, confirmando a esperança despertada em Cristina em outubro de 2000: "Tínhamos certeza que conseguiríamos aliados para esta causa".

Projeto Engenharia Social

Mas existe outra história bonita para contar. É novinha, começou em 2004, quando a Capa comemorou seus 20 anos e decidiu potencializar suas ações de responsabilidade social. "Elegemos, como a melhor forma para comemorar nossos 20 anos, a criação de um projeto que retribuísse para a sociedade o acolhimento que nos deu nesses anos", diz Paulo Fam, na época diretor da empresa. Assim nasceu a proposta do Projeto Engenharia Social - Para Construir Esperança.

"Toda nossa verba de campanha institucional para comemoração dos 20 anos e mais uma parte do orçamento anual dos próximos dois anos estão destinadas ao projeto," totalizando 500 mil reais em três anos, explica Fam. Mas o projeto da Capa não encerra com a assinatura de um cheque por parte de um dos diretores. Longe disso, assegura: "queremos utilizar o respaldo da Capa perante a cadeia produtiva da construção civil para conscientizar e aglutinar empresas e parceiros em torno deste e de outros projetos sociais". Já no lançamento oficial, em 8 de junho, na sede do Sindicato da Construção Civil, o Sinduscon, o salão lotado deu uma idéia boa do apoio que a iniciativa ia receber. No final do Projeto, foram contabilizados mais de 50 parceiros, que devem continuar no ano que vem.

Alguns meses antes, o engenheiro Henrique Ledur havia apresentado a Fam a história da Casa Amarela das Araucárias. Impressionou bem e a equipe do Projeto Engenharia Social, que pediu os estatutos da Recriar, avaliou a entidade em conjunto com outras demandas e a elegeu como beneficiada pelo projeto em 2004. O lançamento oficial foi no dia 8 de junho.

Como ninguém dessas empresas, como se dizia antigamente, é de capinar sentado, a obra iniciou rapidamente. Para simbolizar a solidariedade do Projeto Engenharia Social, no dia 12 de agosto houve um mutirão, no qual funcionários da Capa misturaram cimento, carregaram carrinhos de mão e alinharam tijolos junto com pedreiros e futuros moradores. A nova Casa Amarela estava nascendo e já tinha nome, em homenagem a uma árvore que está naquele terreno há 100 anos: Casa Amarela da Figueira.


A casa nova

Quando Carlos Schettert e Paulo Fam perguntaram, às dez e meia da manhã do dia 16 de dezembro, quem queria cortar a fita, Nicolas, 7 anos, há um residente da Casa, timidamente, se candidatou. Depois, explicou que "queria ver a casa logo". É que eles só tinham ido uma vez lá, antes, no dia do mutirão. A Recriar achou melhor não aumentar muito a ansiedade de todos com visitas constantes. "Eu estava ansioso mesmo", confessa Rodrigo Leite Stulpen, 15 anos. "Agora, estou muito feliz". São quatro dormitórios, cozinha, banheiros, duas salas multiuso e mais um salão. "A casa nova é boa porque tem espaço para trabalhar a individualidade e privacidade dos grupos diferentes", diz Gilmar. Todos estudam e no turno inverso desenvolvem alguma atividade. Rodrigo, por exemplo, joga futebol na escolinha do Inter. O irmão dele, Roberto, também já freqüentou a escolinha, hoje estuda inglês e faz planos para o futuro: "Quero ser jogador de futebol". O irmão duvida: "Tu reclamas muito". Eles discutem um pouco e deixam o assunto de lado.

Para Gilmar, a nova Casa Amarela simboliza a força que têm o amor e a amizade: "A Casa expressa a solidariedade de outras pessoas. É uma casa recheada com amor. A Capa foi o canal para que outras empresas participassem". Entre as empresas a agradecer, ele cita o Banrisul e o Banco do Brasil, que abriram débito em conta para a ONG, o Banco de Boston e a Gerdau.

No dia da inauguração, foi a vez da Mobiliari, revenda da Delano, aderir. Depois da visita, a representante Fátima Santos anunciou a doação de uma cozinha.

"Este é mais um laço que estabelecemos com a sociedade", anuncia Fam. "É a satisfação de termos feito um pouco para diminuir o sofrimento de tantas carências sociais". Naquele momento, entre refrigerantes e salgadinhos da festa de inauguração, encerrava-se a primeira ação do Projeto Engenharia Social da Capa. Existem outras entidades interessadas e se cadastrando. "Na reunião de março, vamos definir qual será a entidade com a qual vamos trabalhar em 2005".

No hall de entrada, da nova Casa Amarela, há um agradecimento singelo e eterno. É um quadro do chargista Santiago, dedicado "aos amigos da Capa e da Prefeitura".

A importância dos parceiros

Uma vez, um empresário visitou uma pedreira e perguntou a três operários que encontrou: "O que você faz?". O primeiro respondeu: "Eu quebro pedras". O segundo disse que "fazia calçadas" e o terceiro: "Eu ergo catedrais". O empresário contratou o terceiro. Cada parceiro do projeto da Casa Amarela fez mais que ajudar uma entidade de atendimento a menores; está construindo catedrais de solidariedade. A Capa agradece a todos.

 
 
A nova casa :
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Link:

Instituto Recriar
www.recriar.org.br
  Apoiadores do Projeto 2004  
 
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